
Uma inquietação me acompanha.
Aprendi, primeiro como estudante de Letras e, depois, como professora, que a literatura não se define apenas pela publicação, pelo sucesso editorial ou pelo número de leitores. Ela nasce quando a palavra deixa de ser simples meio de comunicação e se transforma em experiência estética, em criação, em transfiguração da realidade.
Durante muitos anos, acompanhei esse nascimento nas oficinas de escrita e no laboratório de redação. Era na procura da palavra justa, na reescrita paciente, nas dúvidas e descobertas dos alunos que a literatura revelava sua natureza: não como produto, mas como trabalho sobre a linguagem.
Hoje, porém, tudo parece caber sob o mesmo rótulo. Literatura tornou-se uma palavra abrangente demais. Livros de entretenimento, de autoajuda, de negócios, relatos pessoais e manuais convivem sob a mesma denominação. O mercado aproxima obras de naturezas distintas e, pouco a pouco, dilui as fronteiras do próprio conceito de literatura.
Não questiono o direito de cada gênero encontrar seus leitores. Toda escrita tem seu lugar e sua função.
O que me inquieta é outra coisa. É perceber que o escritor comprometido com a linguagem, com a elaboração artística da palavra, com o tempo da criação, da leitura e da reescrita ocupa um espaço cada vez menor. O silêncio da mesa de trabalho disputa atenção com a velocidade dos algoritmos, dos rankings de vendas e das vitrines digitais.
Volto, então, a Olavo Bilac e ao rigor de “Inania Verba.” Não por nostalgia de um tempo idealizado, mas porque continuo acreditando que a literatura exige um trabalho paciente, quase artesanal, em que cada palavra é escolhida não apenas pelo que diz, mas pelo modo como cria sentido, emoção e permanência.
Neste Dia do Escritor, pergunto: ainda reconhecemos a literatura como arte da palavra ou passamos a chamar de literatura tudo aquilo que simplesmente se publica?