Ontem ouvi de uma nutricionista a expressão cardápio divino, referindo-se a tudo o que a natureza nos oferece sem alarde: raízes, folhas, frutos e sementes, antes da indústria, das embalagens e dos inúmeros processos que transformam os alimentos até quase fazê-los esquecer a própria origem.
Não era uma definição científica. Era quase uma profissão de fé.
A frase permaneceu comigo. E foi então que percebi um curioso paradoxo entre a escrita e o alimento.
Com a linguagem, acontece uma espécie de lapidação. Escrevemos, reescrevemos, retiramos os excessos, até que as palavras revelem apenas o essencial. Quanto mais amadurece, mais a escrita se aproxima da sua verdade.
Com os alimentos, muitas vezes fazemos o caminho inverso. Processamos, refinamos, acrescentamos, modificamos. E, nesse percurso, não raro eles se afastam da simplicidade com que nasceram.
Quem aprende a olhar para a mesa descobre que a terra também tem a sua própria escrita: uma linguagem silenciosa, sem aditivos, na qual cada alimento conserva a memória da criação.
A natureza continua sendo a melhor mestra. Ela nos oferece, sem artifícios, aquilo de que realmente precisamos, lembrando-nos de que a simplicidade não é pobreza, mas plenitude.
Ensina-nos a alimentar o corpo com a mesma autenticidade com que a palavra, quando encontra sua essência, alimenta a alma.

Essa é, afinal, a mais antiga e a mais sábia das receitas: o cardápio divino.


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